quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

UM NATAL MAIS QUE PERFEITO


 
Lembro aquele natal inesquecível, foi o mais terno e feliz, que a minha família podia ter.
O processo de guarda do Rodrigo, requerido pelos meus Pais junto do tribunal, ficando com a sua custódia, finalmente teve o seu epílogo.
Os meus Pais, em conjunto com o nosso advogado, interpuseram recurso, devidamente fundamentado, de forma categórica e inequívoca, rebatendo a primeira tomada de decisão, que não nos tinha sido favorável.
Reuníamos todas as condições, socioeconómicas, para ficar-mos com o Rodrigo.
Além disso, era-mos uma família solidamente estruturada.
O meu Pai, sabia muito bem esgrimir os seus direitos de Padrinho, e não se deixava vencer facilmente.
Tudo se resume, a uma questão de carater e personalidade, que sou orgulhosamente herdeiro.
Era um homem determinado na luta e defesa das causas.
Esta, era do afilhado, de quem tanto gosta.

A prepotência ditatorial do homem, e das leis, não podem padecer de tão profunda e cruel cegueira.
Acredita em nós Diogo.

Estas palavras e a forte convicção dos meus Pais, deixavam-me tranquilo.
Eu não tecia comentários, sobre o assunto ao Rodrigo, para não lhe elevar, os índices de ansiedade, tinha receio, que cometesse algum ato irrefletido.
Dado adquirido, ninguém da aldeia e da escola, aceitavam que ele fosse para uma instituição, a começar pelo Rodrigo.
Por tudo isto, eu era muito contido no que concerne a esta matéria.
Eram as instruções, que os meus Pais me tinham dado.
Não lhe devia alimentar, falsas espectativas.
Dizia-lhe sempre para ter esperança.
Ele andava muito revoltado, pelo empasse em que estava a decisão, do recurso entreposto.
Mas depositava nos meus Pais, toda a confiança, e desabafava dizendo.

Diogo, só os Padrinhos me podem salvar.

Eu todas as noites, rezava para que tudo corresse a nosso contento.
Fiz uma promessa à Santa Rita, dar-lhe nove velas, tantas como a idade do Rodrigo.
Pedia-lhe, para nos ajudar a ganhar esta questão, e dessa forma dar-me, o irmão que eu tanto queria.
A minha Mãe, depois da gravidez de alto risco, a quando da minha gestação, ficou impossibilitada de ter mais filhos.
Um de nós esteve a morrer, mas felizmente estamos cá os dois, e muito felizes.
Tenho a melhor Mãe do mundo, e eu tudo faço para ser um bom filho.
Ao fim de uma luta titânica, por parte dos meus Pais, fazendo valer o grau de parentesco de Padrinhos, tudo chegou a bom porto.
Foi um processo que esbarrou em vários obstáculos, já que o tribunal, mostrava-se intransigente, em abdicar da decisão de institucionalizar o Rodrigo.
Todos sofremos muito com esse fantasma a pairar sobre as nossas cabeças.
Era uma guilhotina, que a qualquer momento podia decepar a vida do Rodrigo, ferindo de morte, no seu amor-próprio, e a nossa, pelo amor que todos lhe temos.
A frieza e por vezes indiferença, que as mais altas instâncias, abordam e tratam, estes processos, são execráveis.
Eu sempre acreditei, na capacidade e eficiência do meu Pai, e do advogado a conduzir este assunto, tão melindroso.
Por vezes via-o, de semblante carregado, quando lhe preguntava como ia o processo.
Ele era lacónico na resposta, outras vezes algo evasivo, Evitando o meu sofrimento.
Estava ciente da importância que eu dava a adoção do Rodrigo.
O meus Pais sempre me diziam.

Diogo, mantém a calma, tudo está a ser feito com o intuito de trazer para nossa casa definitivamente o Rodrigo.
Temos de dar tempo, ao tempo.
Saber esperar é uma virtude, e devemos saber lidar com isso.
Escuta bem filho.
Faz disto um lema de vida.
Contra a teimosia, nada melhor que a persistência.

Estávamos pela primeira semana de dezembro quando chegou a resposta pela boca do advogado.
Deslocou-se a nossa casa, reunimos na sala.
Aquele hiato de tempo, de abrir a pasta, pegar nas folhas, foram minutos transformados em horas.
Os meus Pais, transpareciam uma calma aparente, eu estava mais tenso.

Diogo, o Rodrigo é teu irmão.
Ganhamos o recurso.
Foi dado o veredito final.

Eu não cabia em mim de felicidade.
O sonho de ter um irmão, realizava-se.
Saltei do sofá, gritando.
Ganhamos ganhamos ganhamos.
Abracei os meus Pais a chorar de alegria.
Com tanta emoção, só sabia agradecer-lhes.
Vi lágrimas nos olhos dos meus Pais.
O semblante do advogado, transparecia felicidade, pelo dever cumprido.
Terminava ali, o caminho tormentoso do Rodrigo, e Os maus tratos, que o Pai, lhe infligia, e o calvário deixado, pelo abandono da Mãe.
Agora juntos, Íamos desbravar novos horizontes, para um traçado de vida em comum.
Partilhar os mesmos Pais, a mesma casa, a mesma mesa e as mesmas brincadeiras.
Deixei que fossem os meus Pais a darem a notícia ao Rodrigo.
Foi no almoço de sábado em minha casa, que lhe foi transmitido, tão ansioso desfeche.
Os olhos tinham um azul cintilante, sedentos por saber qual o destino que o esperava.
Estava de rosto algo fechado, vi-lhe muito medo, daquele momento.
Foi então que o meu Pai, disse.

Rodrigo, este natal vai ser diferente.

Aquela pausa, parecia infindável.

Como assim Padrinho?

Esta casa é tua, o Diogo é teu irmão, nós os teus Pais.

Caiu no choro convulsivo, abraçado a mim, dizia: finalmente somos irmãos!
Não cabia nele, de tanta euforia.

Somos irmãos Diogo!
Deus existe!
A Santa Rita também!

Abraçou o meu Pai dando-lhe um beijo.
Obrigado Padrinho, és um herói.

Rodrigo, não há heróis, à sim, garra e determinação, de lutar pelos nossos objetivos.

Acabou no colo da minha Mãe, momento carregado de enorme singularidade, e afeto.
Já não se lembrava, de ser acolhido, pelo único e melhor regaço do mundo, o de Mãe.

Adoro-te Mãe.
Agora não vos trato por Padrinhos, mas sim por meus Pais.
Tudo vou fazer, para vos retribuir e agradecer, todo o empenho na defesa desta minha causa.
Saberei estar a altura, da aposta que fizeram, e do investimento que vão fazer em mim.
Obrigado Pai, Mãe e mano, aquece-me o coração, poder prenunciar estes nomes.

Rodrigo, vamos-te ministrar os mesmos padrões educacionais do Diogo.
A partir de hoje, tens os mesmos direitos e obrigações do teu irmão.

Sim Pai, é justo que assim seja.

A minha Mãe afagava-lhe o rosto, e cobria-o de beijos, da forma carinhosa que eu bem conhecia.
Fui inundado por uma inusitada felicidade.

Bom, meninos, sabem qual vão ser as vossas tarefas para esta tarde?

O quê Pai?

Preparar o quarto do Rodrigo, e depois uma surpresa.

Qual?

Vamos todos fazer a nossa árvore de natal, este ano ela reveste-se de um significado, redobrado e especial.

Boa, o pinheiro de natal vai-se chamar Rodrigo!

Não Diogo, vamos é deitá-lo no presépio!

Gracejou o meu Pai.
Soltamos em coro, uma sonora gargalhada.
Respirava-se um ar pleno de felicidade.

Agora meninos, acabou o secretismo relacionado com o processo do Rodrigo.
Quanto aos trâmites que faltam, nos próximos dias tudo ficará concluído.
Já podem dizer na aldeia, e na escola que ele está definitivamente em nossa casa, e que faz parte integrante da nossa família.
Assim se faz o natal!!!

 

DIOGO_MAR

18 comentários:

  1. Uma história muito linda e com um final feliz!
    Se todas as crianças pudessem ter esse privilégio
    de terem um lar com muito amor e carinho seria muito bom.
    Parabéns aos seus pais por essa grande conquista.
    abraços e obrigada da visita.
    Carmen Lúcia-mamymilu

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    1. Obrigado Carmem Lúcia, pela tua visita.

      Fraseando o poeta, natal é sempre que
      o homem quiser.

      ABRAÇAÇO

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  2. o mais importante é isto mesmo, natal cheio de amor e uma família para o rodrigo.

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    1. Nem mais Margarida, é isso mesmo.
      Gostava de desfeches destes, em muitas circunstâncias adversas na vida de milhões de crianças.

      ABRAÇAÇO

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  3. Que coisa linda, Diogo! Que Natal cheio de alegria vós tereis! O Menino nasceu este ano para o Rodrigo!

    Beijinho

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    1. Olá, é isso mesmo, só gostava que esta história se aplicasse a muitas crianças deste mundo ferido de morte, pelo Egoísmo doentio e exacerbado.

      ABRAÇAÇO

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  4. E este Natal podia ter sido em Maio, ou em Setembro, até Abril podia ser...
    Diogo, gostava tanto de poder ler mais histórias como esta...com um final feliz!!!

    Desejo a todos vós, um Natal repleto de Amor, Paz e Ternura!
    Feliz Natal!

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    1. Obrigado, e muitas outras histórias tens neste blog.
      São histórias de vida, que o tempo não apagou!

      JINHO

      Feliz Natal.

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  5. Oh mas que texto lindo e fofinho. Desejo-te tudo de bom e que passes este Natal com muito amor e muito quentinho pelos teus que te rodeiam querido.

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    1. Fico feliz por ver que esta história foi tão bem acolhida!
      Muitas outras fazem parte deste blog.
      Feliz Natal.

      JINHO

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  6. Oi Diogo,
    Com meus olhos lacrimejando, revivi o Natal de 1982, estava chuvoso, fui buscar perto de uma favela meu presente de Natal, um garotinho que pelos traços da raça negra com 10 dias de vida, praticamente morto. Quase morremos para cuidar do bebê, teve também a burocracia em julgado, mas tudo deu certo.
    Seu pai, ele nem se lembra, pois tinha dois anos quando morreu e fiquei só numa metrópole gelada. Voltei para o interior( também sou adotada), casei-me depois de 7 anos, um homem bom.
    Esse ano de 1982 não deu tempo para armar minha pequena árvore que tenho até hoje. Quer conhecê-lo? Digita no Google: Contar e Administrar, veja o meu orgulho de mãe, esse é o meu maior presente de Natal que ganho todos os anoa dede 1982.
    Não sei se foi a emoção, jamais escrevi sobre meu filho.
    Que vocês todos unidos tenham muitos natais de felicidades.
    Beijos
    Lua Singular

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    1. Olá Dorli:
      O livro da nossa vida tem páginas que já mais se apagam.
      Por motivos positivos, ou negativos, elas ficarão gravadas no álbum da memória.
      É com essas lições de vida que crescemos, e aprendemos a dar o real valor à vida, e o que ela representa.
      JINHO

      Feliz NATAL

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  7. Um texto impressivo e comovente. Penso que todos estão de parabéns, desde os pais a ti, passando por ele, claro. As burocracias são demasiadas para algo que a própria sociedade devia agradecer! E numa união de Amor, a tua própria espera é muito bonita por esse irmão... Sim, faz-se Natal assim...

    Para ti, um Natal do melhor, Diogo!

    Abração

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    1. Daniel:
      A vida é composta por desafios, que nos coloca à prova.
      Há armas, que inegavelmente fazem parte do meu arsenal.
      Abnegação persistência e humildade.
      Desta forma, tento concretizar os objetivos que almejo.

      ABRAÇAÇO
      Feliz Natal

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  8. Adorei! É tão bom haver ainda justiça neste país! :D
    Abração!

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    1. Ainda há histórias com finais felizes!

      ABRAÇAÇO JOÃO

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  9. Simplesmente... encantado!
    O momento ideal para que a criança possa ainda vir a ser um homem feliz. Que bom! Isto sim, são prendas de natal.
    Abraço.

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    1. Obrigado Paulo:
      A persistência, leva-nos ao caminho da felicidade, e para ela acontecer, é irrelevante a idade, importante é que chegue!

      ABRAÇAÇO

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